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Vila Canindé. Nome bonito, acordo que faz sentido, mas é preciso pisar no freio no oba-oba, principalmente na euforia santista, com todo respeito. Explico. O Estádio Doutor Oswaldo Teixeira Duarte não é um amontoado de tijolo que deu origem a um lugar onde se joga futebol. Não, longe disso. E também não se resume ao senso comum: ah, é a casa da Portuguesa. Também não. O Estádio do Canindé é proprietário de uma simbologia quase única no futebol brasileiro, comparável somente à atmosfera do Estádio de São Januário do Vasco da Gama. Detalho.
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O Canindé, que completa meio século neste ano, foi palco de grandes craques do futebol brasileiro, mas o seu pertencimento não está atrelado aos atletas de renome. O Doutor Oswaldo Teixeira Duarte é um projeto de uma comunidade, que resolveu colaborar ativamente para que o sonho virasse realidade. É preciso sublinhar, portanto, que a casa da Portuguesa não é um estádio apenas. É um ponto de encontro entre os patrícios, que um dia se meteram em navios e refizeram a rota de Pedro Álvares Cabral para fugir das guerras contra as ex-colônias portuguesas ou mesmo da pobreza que imperava no Portugal de Salazar. Em outras palavras, é um local de memórias. E memórias afetivas, que são as mais caras e resistentes ao tempo.
Eu mesmo tenho boas histórias para contar ali, como jornalista e também como torcedor. E mais recentemente como pai. Meu filho, que tem 4 anos, não fala microfone, quando aparece o botão do navegador Waze para definir a rota de um caminho qualquer. Ele diz, “papai, deixa eu falar no Canindé”. Para ele, Canindé é microfone e só o é, porque quando ele tinha dois anos, em plena pandemia de Covid-19, para distrai-lo, eu colocava o Waze e dizia: “vamos ao Canindé?”. A ideia, claro, era também estabelecer um vínculo entre mim, ele e a Portuguesa. E ele, como mal falava, balbuciava “candé”.
Certamente, não sou o único a ter uma história como essa, que levarei para toda vida, você também tem uma. E se conversar num dia de jogo de futebol no Canindé e começar a perguntar o que significa o estádio, provavelmente vai ouvir relatos de amor, de alegria, de saudades, sempre envoltos numa imagem ao lado de um pai, de um avô, de tios e de irmãos.
O Canindé é mais que um estádio. É a materialização da alma de uma comunidade. Hoje, não é exagero afirmar: é a única coisa que mostra à cidade de São Paulo e, em boa medida ao País dada a sua localização estratégica, distante nem 10 quilômetros do Aeroporto Internacional de Guarulhos (SP), o quão relevante foi, e luta para voltar a sê-lo, essa brava Associação Portuguesa de Desportos.
Por isso, é tão difícil aceitar acordos envolvendo o Canindé, sem que sentimentos difusos sejam despertados. Porque a argamassa desse estádio não é de cimento. Ela foi feita de identidade e pertencimento. O Canindé é uma ideia de uma Portuguesa grande, vencedora, temida em seus domínios. E esse é o xis da questão.
Tenho a sensação, com tudo isso posto, de que esse passo deveria ter sido mais discutido e debatido pela torcida da Lusa. Nem digo sócios, porque hoje o número de pagantes do clube deve ser risível, mas talvez tivesse funcionado se tivessem envolvido os sócios-torcedores. Acredito que já teria sido um bom ponto de partida.
Muito embora, é preciso frisar, o racional financeiro do negócio indique estabilidade e credibilidade, ou seja, fica em pé, o assunto é delicado. Apesar de todo o torcedor da Lusa saber que um estádio de 50 anos naturalmente reivindica uma reforma e que a Série A-1 do Paulista, hoje, exige um outro padrão de palco de jogo, há uma certa dúvida que paira no ar: qual é a duração desse acordo? Porque não há nada que incomode mais o torcedor da Lusa do que imaginar que a sua casa verde-vermelha poderá perder a identidade com o passar dos anos. E isso incomoda, ainda que ninguém tenha verbalizado claramente.
No mais, com a característica hospitalidade da comunidade portuguesa de São Paulo, digo: seja bem-vindo, Santos Futebol Clube. Com respeito à nossa história e nossas cores, tenho a sensação de que será uma convivência muito bacana, ainda que nos levante a sobrancelha em alguma medida.
* Maurício Capela é jornalista há 28 anos. Comentarista, já trabalhou em diversos veículos, como RedeTV!, 105 FM, Tropical FM, Veja, Valor, Gazeta Mercantil.
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