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Maurício Capela: All-In em verde vermelho

Dado Cavalcanti é o novo treinador da Portuguesa para a temporada 2024. E, apesar da torcida de nariz dos lusos, a grande questão não é se tem ou não condições de treinar bem a Lusa; o ponto é se Dado Cavalcanti tem conhecimento do atual momento do futebol paulista para fazer um grande trabalho no ano que vem

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Foto: Divulgação/Portuguesa

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Jogar pôquer requer algumas habilidades. A primeira é a ousadia. A segunda é saber blefar e a terceira é ter o dom da interpretação. Muito embora tenhamos feito em três passos o “manual do praticante de pôquer”, sabemos que os toques acima não estão em ordem, não obedecem a lógica e nem servem de guia para vitórias e derrotas nesse emaranhado de cartas não-marcadas.

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Mas há um quarto elemento que se sobrepõe aos pontos citados: a sorte. Vez por outra ouve-se dizer que o sujeito está com a mão cheia ou simplesmente foi para o tudo ou nada, o famoso All-In. Nessas horas, ou se tem uma jogada de mestre ou se tem sorte. Simples assim.

Apesar do pôquer não estar entre as modalidades esportivas da Portuguesa, a diretoria de futebol resolveu lançar mão da estratégia mais arrojada desse jogo de cartas, o  All-In. Por quê? Porque apostar em Dado Cavalcanti como seu novo comandante é flertar com o tudo ou nada no Paulistão de 2024. Explico.

Como se não bastasse o retumbante fracasso de 2023 dentro de campo, a Lusa dá o seu pontapé inicial no planejamento de 2024 apostando todas as suas fichas no auxiliar-técnico do comandante do Brasil, Fernando Diniz, como sua mola mestra em busca de seus objetivos. E quais seriam as metas? Eu adoraria ouvir dos dirigentes tal informação, mas como não li, ouvi ou vi, deduzo que seja se manter na A-1 do Paulista e beliscar a vaga direta na Série D de 2025 via Estadual. Seria espetacular, sem dúvida. Mas há uma pulga atrás de minha orelha me dizendo que a meta mesmo será não cair no Estadual. Apenas não cair.

Quero crer na primeira, mas vou trabalhar com a segunda hipótese. Nesse contexto, Dado Cavalcanti pode ser considerado o Rei no Royal Straight Flush do Pôquer, a jogada mais importante desse jogo. Porque será ele a indicar reforços, liberar atletas do atual elenco e desenhar taticamente a Lusa para o ano que vem.

Com tamanha responsabilidade pela frente, vale a pergunta: por onde andou Dado ultimamente? Uma rápida pesquisa no Google logo me diz que Dado não treina agremiação alguma desde setembro de 2023. Ou seja, faz pouco. Comandou o América de Natal nos sete últimos jogos da Série C e não conseguiu evitar o rebaixamento para D.

Portanto, seria injusto, primeiro, tomar pé sobre Dado por este trabalho, que apareceu de maneira promissora no cenário nacional há quase vinte anos, deixando a base do Náutico e indo treinar o Ulbra de Rondônia, onde inclusive venceu o Campeonato Rondoniense em 2006 e 2007. Injusto, fato.

Mas como avaliá-lo se os últimos trabalhos foram curtos e não terminaram de maneira exitosa, com exceção do Bahia, onde na saída de Mano Menezes, venceu a Copa do Nordeste em 2021? Difícil estabelecer régua de comparação, mas há uma que o torcedor da Lusa pode naturalmente enveredar, o futebol paulista.

De todos os clubes por onde passou, Dado somente treinou o Mogi Mirim, Ponte Preta e Ferroviária no Estado de São Paulo. De longe, o melhor trabalho foi no Mogi, onde disputou as semifinais do Paulista de 2013, dez anos atrás. Por lá, dirigiu a equipe que deu a Rivaldo o caminho para o mundo em 21 jogos, alcançando 13 vitórias, três empates e cinco derrotas. E foi eliminado pelo Santos na semifinal em penalidades.

Na Ferroviária, em 2020, ano de pandemia, Dado a comandou em sete jogos, com duas vitórias, três empates e duas derrotas. É bom ressaltar que a Ferroviária era vice-líder do seu grupo na Série D daquele ano. Já na Ponte em 2014, a comandou na Série B. Em 12 jogos disputados, Dado venceu quatro, empatou cinco e perdeu três. Saiu por divergências com a diretoria, dizia-se à época do desenlace.

Portanto, o grande ponto de interrogação é saber se Dado conhece o atual momento do futebol paulista a tal ponto que tenha capacidade para montar um time competitivo em 2024? Essa é a questão. Porque quando se aprofunda ao longo da carreira de Dado Cavalcanti, apesar da grita da torcida, o que surge é um treinador com alguns títulos na carreira, com alguns trabalhos bem consolidados, também com momentos ruins e que talvez tenha deixado passar boas oportunidades em sua trajetória.

Trocando em miúdos, nada diferente da maioria dos treinadores que a Portuguesa poderia trazer para o Paulista de 2024. Nada. Ou seja, os dirigentes rubro-verdes fizeram uma aposta. Um All-In. O grande problema é que no futebol, na vida ou no pôquer é preciso pagar para ver a mão de cartas. E a Portuguesa escolheu pagar para ver.

* Maurício Capela é jornalista há 28 anos. Comentarista, já trabalhou em diversos veículos, como RedeTV!, 105 FM, Tropical FM, Veja, Valor, Gazeta Mercantil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do NETLUSA

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