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Maurício Capela: Carta aberta aos jogadores da Lusa

Domingo não é apenas mais um jogo de futebol. É a queda de um projeto, de uma crença, de um sonho: o da recuperação da Portuguesa. Portanto, joguem, compitam, deem tudo de si, porque vocês poderão ir até embora na segunda-feira, mas nós estaremos aqui sempre: porque a Lusa nunca vai acabar. Nunca!

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Foto: Ronaldo Barreto/NETLUSA

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Caros, espero que essa correspondência os encontre bem. Bem fisicamente, em boas condições de sanidade mental e com grande disposição. Contudo, eu não vou começar essa cartinha os elogiando, porque, convenhamos, não há como. A temporada até aqui é desastrosa. O sentimento é de queda. Tanto que os matemáticos falam em chances acima de 95%. Um horror, mas é isso.

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Também não pretendo ofendê-los, pois como sempre friso se eu sou um “metalúrgico” da palavra, vocês são trabalhadores da bola. E em ambos há uma boa dose de arte, de inspiração e de nobres sentimentos.

Apesar de ter a clara sensação de que essa mensagem nem sequer será notada, vale o meu esforço. Vale, porque daqui a pouco, vocês estarão em outro canto, defendendo outras cores, respirando novos ares e eu estarei aqui, exercendo uma de minhas atividades: falar sobre futebol, em especial, o futebol rubro-verde.

Dito isso, sublinho, nos deixem respirando também. Alguns de vocês criaram uma linda sinergia para com a torcida, porque já estão aí faz um tempo e entenderam que a Portuguesa não é só um clube de futebol. A Lusa é maior que isso. A Portuguesa é um pedaço do interior de Portugal no Brasil. Esqueçam Lisboa, Porto, estou falando aqui do Minho, de Trás-os-montes, Braga, norte de Portugal, em geral.

Talvez, muitos de vocês jamais tenham ido ali, naquele pedaço do planeta. E não entendem que a palavra naquela região – e em outras, claro, mas falo dessa nessa coluna –, não faz curva. Talvez, tenham dificuldade em compreender como esse clube se potencializou com esse pessoal, que se meteu nuns navios daqueles e desembarcou ou no Rio de Janeiro ou em Santos para chamar São Paulo e a cidade maravilhosa de lar. Eu sei, é difícil imaginar. Mas se um dia vocês lá botarem os pés, vão me entender.

Esse pessoal que doou sacos de cimento, suor, sorrisos e lágrimas para erguer esse palco no qual vocês empilharam empates em 2023, se acostumou a acordar cedo. Pegar no batente às 4 da manhã. Eram pobres, alguns com pouco estudo, mas ciosos da responsabilidade do que é ser homem, chefe de família.

Com o passar dos anos e com a vivência dessa gigantesca e acolhedora cidade, a nossa capital do Estado, cresceram financeiramente, se multiplicaram em gerações e transformaram um clube com poucos títulos num dos grandes do País. Soa natural, mas não o foi. O processo foi árduo.

Sinceramente, escrevendo essa carta, eu também fico com a sensação de que falo de outro time, quando se olha a Portuguesa de hoje. E mesmo muitos achando que por ter um estádio com problemas, um quadro associativo diminuto, uma categoria de base incipiente, a Lusa nada tem, eu cá remo na direção contrária. Porque a Portuguesa nos tem. E isso é muito, uma vez que esse português que se meteu no Vapor, soube passar para a sua prole como a banda toca. Soube ensinar, os que quiseram aprender, obviamente, que construir e reconstruir são verbos da língua portuguesa e naturalmente é prática dessa gente. Por isso, a Portuguesa não acaba. Por isso, a Portuguesa jamais vai acabar, porque essa turma não tem medo do batente, do começar de novo, do fazer acontecer. E isso permeou essa nova geração apaixonada de torcedores, graças a Deus.

Mas ninguém é perfeito, rapaziada. Vocês não são. Eu tampouco. E eles idem. Todos erram. E nós erramos demais nesse Paulistão. Agora, erro maior seria cair do jeito que estamos caindo para A2. Sem luta. Sem brio. Como se fosse uma nau a deriva. E de mar, nossos ancestrais entendem um tanto.

Porque perder faz parte do ofício de vocês, bem como ganhar. Mas vocês me passam a sensação de que estão confortáveis com a situação. Com o descenso. E isso é muito ruim, não só pela queda, mas porque perder sem lutar não tem muito a ver com a nossa gente. Com a nossa torcida.

Então, Thomazella seja você mesmo diante do Mirassol. Lateral-direito, substituto do Pará, por gentileza, incorpore o espírito do Djalma Santos, de um Zé Maria. O mesmo vale para o substituto do Bruno Leonardo. Que jogue como Luís Pereira.

Robson mire-se em César Augusto, Eduardo, Calegari. E Fabiano pode se inspirar no Zé Roberto, no Augusto ou no Ordilei. Marzagão é hora de ser Capitão. Tauã assuma uma função no melhor estilo Galo, mas pode dar uma olhada em como jogava o Badeco. Daniel Costa é hora de ser um Zenon, um Edu Marangon, está na hora. Melhor, passou da hora. João Victor já ouviu falar do Zinho? Não o do Palmeiras, o nosso, o que tomava suco de cajá e corria o dobro dos adversários. Então… Mas se quiser pode ver os vídeos do chaveirinho Evandro. Nos serve também.

Paraizo, fisicamente, você lembra o Leandro Amaral. Eu não sei se você sabe, mas o Leandro é o maior artilheiro do estádio do Canindé. Deixou para trás uma lenda do nosso clube, Enéas. A gente não esquece de quem lutou pela gente em campo. Gustavo Ramos, por exemplo, mantenha a entrega. Deixe tudo no gramado, como você tem feito. Nessa hora, vontade conta muito.

Em outras palavras, jogadores, ninguém está comparando nada e ninguém. Só estou os lembrando que a camisa vestida por vocês tem muita história. Muita tradição. E fiz questão de citar jogadores das respectivas posições de vocês, para que se lembrem que domingo, é pela nossa história, pela nossa sobrevivência, é pela Associação Portuguesa de Desportos, ainda que na segunda-feira, muitos de vocês já não estejam mais.

Meus caros, joguem por nós, pelo clube. Se cair batalhando, acontece. Agora, caindo sem chutar no gol, não é só vergonhoso para cada um de vocês, é embaraçoso para nós também. Rapaziada, joguem pela nossa história. Só isso. E até domingo!

* Maurício Capela é jornalista há 28 anos. Comentarista, já trabalhou em diversos veículos, como RedeTV!, 105 FM, Tropical FM, Veja, Valor, Gazeta Mercantil.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do NETLUSA

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