Início Colunas Coluna do André Carlos Zorzi Opinião: Weverton ou Calaça? Há dez anos, um dilema típico do Canindé

Opinião: Weverton ou Calaça? Há dez anos, um dilema típico do Canindé

Polêmico afastamento e falha crucial marcaram a passagem dos goleiros pela Portuguesa

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Foto: Divulgação/Portuguesa

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Recentemente, tiveram alguma repercussão notícias envolvendo dois ex-goleiros da Lusa que o torcedor provavelmente se lembra bem. Um deles, Weverton, aquele da Barcelusa, quebrou um recorde de jogos sem levar gols no Palmeiras. O outro, Rodrigo Calaça, ajudou na classificação do seu time, a Juazeirense-BA, nos pênaltis, sobre o Vasco.

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Parece que foi ontem, mas já faz 10 anos que Jorginho e a diretoria da Portuguesa ficaram em dúvida entre um e outro – e escolheram errado, numa daquelas “coisas que só acontecem no Canindé”.

Há uma matéria publicada no Globo Esporte em 3 de janeiro de 2012, cujo título é “Weverton, Tom e Calaça: três nomes para uma vaga no gol da Portuguesa”. Nela, o acreano dizia: “Fomos campeões e fui o goleiro menos vazado, mas, agora no Campeonato Paulista, isso já não conta”. Parecia uma declaração vazia, já que ele era inquestionavelmente o titular. Mas mal sabíamos como realmente não contava.

Foi em um 15 de março, em 2012, que o técnico da Lusa afastou o então dono da posição: “O Weverton tem que resolver a vida dele, se ele fica aqui ou vai embora. Não posso continuar com ele no gol se não está focado nos jogos”. Na ocasião, ele tinha contrato até o fim do torneio, mas ainda não havia renovado – e nem iria.

Segundo informações do próprio NETLUSA, o atleta pediu R$ 80 mil mensais e um valor em ‘luvas’. Também queria ajudar financeiramente sua mãe, que havia perdido parte da casa por conta de uma enchente em Rio Branco, no Acre, terra natal do arqueiro. Sem concordar com um aumento, a diretoria não se mobilizou para continuar com o jogador. Jorginho tirava o dele da reta: “Agora, a questão é com a direção. Se ele renovar, volta”.

Weverton estava com 24 anos de idade, era um nome promissor, que vinha se consolidando em torneios grandes como a Série B e o Paulistão apenas recentemente. Além do título da Barcelusa, vinha em boa fase e estava prestes a completar seu 100º jogo com a camisa rubro-verde. Vale lembrar que, àquela altura, na Lusa, ele disputaria a Série A no segundo semestre, enquanto seu destino, o Athletico-PR, estava na segundona.

Naquele dia, a Portuguesa ocupava a 14ª colocação no Paulistão, com 14 pontos. O primeiro do G8, o Bragantino, tinha oito a mais que nós, 22, e o Botafogo, primeiro da zona de rebaixamento, tinha cinco a menos, 9. Parecia muito improvável que qualquer coisa além de ficar naquele limbo fosse acontecer. Mas qualquer estatística vira pó quando se trata do clube do Canindé.

Calaça tinha idade mais avançada, 31 anos. Havia passado a maior parte da vida profissional no Goiás, principalmente na reserva, já que foi o período em que seu colega Harlei fez mais de 800 jogos pela equipe. No ano anterior, integrou o elenco do Sport que subiu no brasileiro.

Jorginho bancou a escolha. Weverton foi afastado do time principal e Calaça recebeu a chance. Nos jogos seguintes, vencemos apenas o Comercial (3 a 0), perdendo para Oeste (3 a 2), Ponte Preta (3 a 1) e Santos (2 a 0). Antes da penúltima rodada, contra o Linense, ainda tivemos tempo de perder para o Juventude (2 a 0) na Copa do Brasil. Confesso que não lembro se Calaça falhou nos gols, mas me recordo do pessoal da Web Rádio Lusa revoltado com ele após repetidos erros em tiro de meta que saíam pela linha lateral.

Veio o fatídico jogo contra o Linense. Vencendo, a Lusa se livrava de qualquer chance de cair. Abrimos 2 a 0. O Linense diminuiu e, então, teve a chance de empatar por um pênalti cometido por… Calaça. A torcida já estava fula da vida quando ele foi lá e fez uma defesaça! Virou, por um momento, herói por defender uma penalidade causada por um erro dele mesmo. Coisas do futebol.

Faltando poucos minutos para o fim do jogo, o goleiro do Linense, no desespero, deu um bicão para frente. Até hoje não dá para entender bem o que Calaça fez, mas saiu correndo e tropeçou num zagueiro da Lusa, na entrada da área, sem chegar perto da bola, que pingou no chão. O atacante do Linense cabeceou de costas, a bola foi alta e fraca. Completamente defensável, desde que o goleiro estivesse por ali.

Percebendo a bobagem que fez, Calaça ficou desconcertado no restante do jogo. A torcida, que estava relativamente tranquila, não sabia se gritava mais “frangueiro” ou “timinho” na saída de campo. Na ida para o vestiário, ele ainda deu um chute forte na porta, inconformado.

Na última rodada, a Lusa enfrentaria o Mirassol, que brigava para classificar. Jorginho e a diretoria já não bancavam mais a escolha. Todo aquele papo de que Weverton não estaria concentrado ou comprometido o suficiente com o time foi por água abaixo, e ele retomou a posição às pressas. O resultado, todos lembram: derrota por 4 a 2. Até nem seria tanto problema, porque o Botafogo empatava com o Guarani, o que nos mantinha na A1.

Mas saiu um gol lá. A Lusa passou mais de 1.700 minutos daquele campeonato fora da zona de rebaixamento, mas é o último que vale. Jorginho foi mandado embora. Calaça também não continuou para o Brasileirão. Segundo a Wikipédia, depois que saiu da Lusa, ele passou por Goiás, Itumbiara-GO, Atibaia, Anapolina-GO, Santa Helena-GO, Gama e Juazeirense.

Já Weverton passou seis anos como titular do Athletico-PR. Ajudou o time a voltar para Série A, disputou final de Copa do Brasil, defendeu pênalti em Libertadores e foi campeão olímpico pela Seleção Brasileira. No Palmeiras, colecionou títulos.

A ideia aqui não é responsabilizar Calaça por um rebaixamento coletivo, que veio após 19 rodadas de um futebol frustrante. E muito menos criticá-lo como profissional – quem chega aos 41 anos na ativa é porque alguma qualidade tem (inclusive, o time dele joga a 1ª divisão estadual, Copa do Brasil e Série D, enquanto nós continuamos ‘a ver navios’). Mas que, naquele momento, Weverton era a escolha óbvia para o gol, isso era. E o tempo só ressaltou.

Não dá para entender se foi falta de visão da diretoria, ou pura teimosia de Jorginho. Mas quantos jogadores não entram em campo até as últimas rodadas do Brasileirão, mesmo sabendo que o contrato acaba no fim do ano? Será que Weverton realmente fez algo que justificasse o afastamento? Lembro que o meu sentimento, na época, e o de parte da torcida, era de que foi uma medida desnecessária. E custou caro. Mas, convenhamos, conhecendo as coisas que acontecem com a Lusa ao longo da história, foi uma surpresa?

Para fechar, proponho aqui um exercício de imaginação, o famoso “e se…?”: já pensaram se o contrato do Weverton fosse renovado e a gente não caísse? É bem provável que não precisássemos ir atrás de outro goleiro, o que acabaria inviabilizando a vinda de Dida – que eu considero a nossa principal contratação nesse século. Por outro lado, talvez também ‘inviabilizasse’ o doloroso 7 a 0 para o Comercial. Mas como o “se…” não entra em campo…

* André Carlos Zorzi é jornalista, autor de “Para Nós És Sempre O Time Campeão – A Portuguesa de 1996” e coautor de “Lusa: 100 Anos de Amor e Luta”.

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