Início Notícias da Portuguesa Portuguesa 102 anos: Maradona na Lusa? Vamos relembrar esse causo

Portuguesa 102 anos: Maradona na Lusa? Vamos relembrar esse causo

Sérgio Luiz Henriques conta os bastidores da 'quase contratação' do craque argentino

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Foto: Divulgação/Site oficial

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Em 27 de março de 1979, no ginásio da Portuguesa de Desportos, ocorreu a entrega do Troféu Gandula, premiação criada pelo jornalista Wilson Brasil. Esse laurel era dado a personalidades do esporte, jornalistas, dirigentes, entre outros.

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Nesse dia, Wilson Brasil premiava os melhores do ano anterior, 1978, e era a primeira vez que também seriam contemplados jogadores e atletas estrangeiros. Seriam premiados Enéas, Zico, Osvaldo Teixeira Duarte, o jornalista Milton Neves e o jogador argentino Maradona, que veio a São Paulo acompanhado do conhecidíssimo empresário do futebol, o uruguaio Juan Figer; vale destacar que Figer figurava como um dos primeiros agentes internacionais reconhecidos pela FIFA, especializado nas transferências de jogadores entre países.

Estava presente também no evento, o sr. Manuel Marques Mendes Gregório, alto dirigente do clube do Canindé, que, no ano seguinte, 1980, se tornaria presidente da Portuguesa sucedendo Osvaldo Teixeira Duarte.

Juan Figer, com trânsito em muitos clubes brasileiros, conhecia bem tanto Osvaldo Teixeira Duarte quanto Manuel Marques Mendes Gregório, pois tinha colaborado com a Portuguesa nas excursões que o time rubro-verde havia feito em 1972 para a Turquia e 1974 para Portugal e intermediou a vinda do atleta português Jacinto João para a Lusa.

Durante a entrega dos troféus gandula daquela noite, Juan Figer puxou conversa com Manuel Marques Mendes Gregório e os dois, juntamente com Maradona, saíram do Ginásio e foram à tradicionalíssima Tri-fita Azul, lanchonete de propriedade do sr. Toninho que ficava no lado externo do ginásio do clube.

Na lanchonete os três foram até uma das extremidades do longo balcão existente no simpático local fugindo de eventuais olhares curiosos e sentaram-se em bancos simples existentes. Foram atendidos pelo próprio Toninho, que cumprimentou Manuel Marques bem como pelo jovial e sorridente Maradona e o empresário. Toninho serviu os cafés pedidos, afastou-se a seguir para atender outros clientes que reclamavam por sua atenção.  

Entre cafés, Juan Figer apresentou Maradona a Manuel Marques Mendes Gregório; disse que era um jovem muito promissor que já despontava no cenário argentino com potencial de se tornar um excelente jogador em razão da qualidade de seu futebol e que era um atleta de qualidade, acima da média dos demais. Informou que estava autorizado pelo Argentinos Juniors, dono do passe de Maradona, a negociá-lo, já que o clube precisava de dinheiro com certa urgência para resolver assuntos pendentes. 

Manuel Marques ouviu atentamente, perguntou qual seria o valor pretendido e prontamente o empresário passou um valor entre 300 e 350 mil dólares. Falou que teria que falar com Osvaldo Teixeira Duarte, presidente da Portuguesa. O dirigente rubro-verde pagou a conta despedindo-se de Toninho e a seguir todos voltaram para o ginásio, pois estava chegando a hora de os jogadores vencedores do Troféu Gandula receberem as belas estatuetas das mãos do próprio Wilson Brasil.

Alguns dias se passaram e Toninho, já em seu posto de trabalho, recebeu a visita de OTD, que não começava o seu dia de trabalho sem primeiro tomar um cafezinho na Lanchonete Tri-fita azul e trocar um dedinho de prosa com o comerciante. Toninho não perdeu a chance e indagou ao presidente se ele iria comprar o passe de Maradona. OTD, surpreso pelo fato de seu amigo dono da lanchonete já saber do suposto negócio, desconversou e sorriu dizendo: “Vamos ver… vamos ver”.

Em que pese a torcida de Toninho para que houvesse a negociação, essa só ficou mesmo na conversa inicial. 

Algumas coisas pesaram para que OTD, como era conhecido o grande presidente Osvaldo Teixeira Duarte, não batesse o martelo:  

1) Valor do passe entre 300 e 350 mil dólares. Hoje em dia já é uma quantia substancial, mas em 1979 era um valor que tinha um peso ainda maior, ainda mais para um clube envolto a obras e a manter um plantel de boa qualidade com salários sempre em dia.

2) A pergunta a fazer era: valeria a pena pagar um valor tão elevado por um jogador que era uma mera promessa que pode não render o que dele se espera e perder dinheiro? Maradona, naquele momento, era uma promessa como tantos outros jogadores que despontavam, nos dão a impressão que serão grandes jogadores, mas que não deslancham na carreira. Cabe ressaltar que ao tomar uma decisão ninguém tem uma bola de cristal para adivinhar o futuro.

3) A Portuguesa estava construindo o terceiro anel do estádio do Canindé, anel esse onde estão as cadeiras cobertas, além da construção das torres de iluminação e da entrada em caracol para as cadeiras. Obras que consumiam muitos recursos do clube, lembrando que OTD não pediu empréstimos bancários para a obra e nem se valeu de recursos públicos, foi sempre com o dinheiro próprio do clube que, por sua vez, vinha do pagamento das mensalidades dos associados, além de doações de torcedores.

4) Outra coisa que pesava, era que se contratasse o rapaz por tão elevada quantia, certamente ele pediria de salário um valor compatível ao seu passe, isso poderia inflacionar os salários dos demais atletas. OTD sempre executou os gastos mediante orçamento previamente feito, não fugindo deste para evitar que o clube mergulhasse em dívidas. Em toda a sua administração à frente do clube, nunca houve resultado deficitário, sempre honrou os compromissos assumidos.

5) E em caso de aquisição e o atleta não jogar o que dele se esperava, como explicar para o associado? OTD respeitava muito o associado que pagava suas mensalidades e sempre foi zeloso no trato com os recursos do clube.

O que teria sido se a história fosse outra e o negócio vingasse? Só Deus sabe…

Vai Lusa…..

* Sérgio Luiz Henriques é torcedor da Lusa, historiador do clube e autor dos livros ‘Lusa: 100 anos de conquistas’ e ‘Lusa, todos os seus jogos’, ambos cedidos ao Museu Histórico da Portuguesa.

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