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Bruno Lucena: A catarse que curou dois tabus em uma noite

Portuguesa derrotou o São Paulo e voltou a vencer um clássico após mais de 12 anos

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Foto: Divulgação/Portuguesa

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Catarse significa purificação ou libertação emocional. Do grego kátharsis, é a experiência de aliviar sentimentos reprimidos (medo, raiva, tristeza) por meio de uma vivência intensa, comum na arte (teatro, cinema, música) e na psicologia, resultando em alívio e clareza, como uma descarga de tensão. Ainda assim, eu acrescentaria a “loucura do futebol” dentro desse contexto.

As linhas acima não são suficientes para descrever o que foi a noite de 21/01/2026. Foi daquelas que literalmente rasgam os prognósticos, mas nos lembram que uma história centenária não é feita apenas de alegrias e tristezas, mas também do improvável.

A torcida lusitana vinha confiante após a primeira vitória, contra o Velo Clube, no Canindé, e logo de cara esbarrou no problema generalizado com biometria do Estádio Cícero Pompeu de Toledo.

O caos administrativo e político vivido pelo São Paulo Futebol Clube serviu como pano de fundo para que a vitória frente a Portuguesa se tornasse uma obrigação ainda maior do que já seria, considerando o abismo financeiro e competitivo entre as duas agremiações, que já decidiram dois Campeonatos Paulistas e protagonizaram dezenas de jogos memoráveis pelo Paulistão e Campeonato Brasileiro, como o 7 x 2 de 1998.

Se olharmos os números recentes contra Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos, em um total de 17 jogos, foram 13 derrotas e 4 empates. Esse número só não é maior por conta do regulamento anterior do Paulistão que reduziu a quantidade de confrontos, além da Portuguesa ter passado sete longos anos na Série A2 e sem divisão nacional, em consequência da derrocada pós-2013.

Praticamente uma geração nasceu e cresceu sem ver a Portuguesa na elite estadual e nacional e muito menos vencendo clássicos.

Este texto não é sobre números frios ou fatos tristes que precisam ser superados. É sobre a retomada de algo que não acontecia havia quase 13 anos em clássicos e 16 anos sem vencer no Morumbi.

A Portuguesa fez parte do caos tricolor e quebrou uma ordem implícita: a de que jogos contra os chamados “grandes” eram três pontos praticamente garantidos para eles, como muitos canais, sites e jornalistas cravaram. Esqueceram-se, porém, de que a Lusa sempre fez questão de quebrar tabus ao longo de sua história.

Sabemos que o elenco ainda tem muito a evoluir e que o técnico Fábio Matias tem muito a extrair dele. Mas quem teve a chance de ir ao estádio, ver pela TV ou por outros dispositivos, com a narração de Gomão Ribeiro e os comentários de Lucas Ventura, pôde torcer, sofrer e, principalmente, soltar o choro entalado havia mais de uma década. Uma verdadeira catarse, convertida em alegria pela quebra de dois tabus em uma única noite.

Uma alegria como tantas outras que essa torcida merece mais do que qualquer outra, por tudo o que já passou e que nenhum torcedor de clube chamado de “grande” aguentaria sequer por um ano.

A cada ataque desperdiçado boa parte dos torcedores acreditava que dava, sim, para sair do Morumbi com a vitória. O 0 a 0 ao final do primeiro tempo não refletia o que se via em campo. A Portuguesa jogava sem medo. Jogava como aquela Portuguesa que esta geração viu poucas vezes, mas que as gerações anteriores aprenderam a amar: um time que não temia ninguém, mesmo com a torcida adversária em maioria.

O primeiro gol da Lusa, marcado por Renê, aos quatro minutos do segundo tempo, fez a esperança do “será que é hoje?” contagiar até os torcedores mais tímidos e elevou os Leões da Fabulosa ao estado de graça. Só se ouviu a torcida adversária no empate de Calleri e, ainda assim, aquilo virou combustível para a torcida rubro-verde gritar a plenos pulmões.

A cada ataque perigoso do São Paulo a Portuguesa devolvia na mesma moeda. Pressionava a saída de bola, e, se caprichasse mais, poderia até sonhar com um repeteco de 20/09/1998. Por que não? Afinal, a bandeira do 7 a 2 eterno está pronta.

Definitivamente, a Portuguesa mostrou, sob o comando de Fábio Matias, que sabe sofrer, pergunta feita na coletiva contra o Velo, tamanha a pressão sofrida naquela vitória. O técnico rubro-verde repetiu a escalação contra o São Paulo, mesmo com o óbvio sugerindo “fechar a casinha e jogar por uma bola”.

O que se viu em campo foi uma Portuguesa que não temia o adversário com um 12º jogador na arquibancada enfrentando um rival em crise, supostamente poupando titulares para o clássico contra o Palmeiras, e uma arbitragem de Raphael Claus que não passou ilesa. Lucas não foi expulso, mesmo que “sem querer também é falta”, o pênalti que originou o segundo gol de Renê só foi marcado após a intervenção da auxiliar, e depois não houve hesitação para expulsar o herói da noite, o camisa 21 da Lusa.

Para fechar a conta, Maceió, com a estrela que só ele tem, mesmo sem aparecer tanto no jogo, fez o terceiro e calou o Morumbi, que começou a ser esvaziado imediatamente. Muitos não viram o segundo gol de Calleri, que até esboçou nova reação do São Paulo, mas já era tarde.

Os quatro últimos gols da partida aconteceram nos 15 minutos finais, além dos 6 de acréscimo. A Lusa passou novamente mais de 20 minutos sofrendo, mas levando perigo na mesma medida em que o São Paulo abria espaços no campo defensivo.

Ao apito final, entre choros de alegria, alívio e felicidade, abraços entre amigos, familiares e desconhecidos, a torcida rubro-verde fez tudo isso transbordar para muito além das arquibancadas do Morumbi, para todos saberem onde estava a Portuguesa e o que ela aprontou novamente.

Se o São Paulo jogou com time alternativo ou não foi o risco que assumiu. A Portuguesa encarou o jogo com a seriedade e a raça com que se deve jogar um clássico, esse no caso, Norte-Sul paulistano, sendo disputado, desde 1930.

Jogou como Portuguesa. Venceu como Portuguesa.

E como está escrito no primeiro texto desta coluna: “Se chegamos vivos e sãos até hoje é porque somos dignos de viver coisas maiores e melhores”.

Torcedor Lusitano, nunca esqueça disso: VOLTAREMOS!

Respirando futebol desde 1988, Bruno Lucena administrador por formação, gestor de produtos digitais por escolha, e lusitano por amor genuíno. Nesta coluna, compartilho reflexões e análises de quem aprendeu que no futebol, e na vida, esperança não se explica, se carrega até o apito final. Até o último tremoço, pipoca e amendoim.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do NETLUSA

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