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Chrystian Gedra: Lusa, cultura e cidade, o valor de olhar para as raízes do Canindé

Da lembrança de Carolina Maria de Jesus às conexões históricas com o Mackenzie e a Casa de Portugal, a Portuguesa reforça seu papel social e cultural

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Foto: Divulgação/Portuguesa

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Dois movimentos importantes feitos tanto pela Associação quanto pela SAF da Portuguesa nas últimas semanas apresentaram um movimento importante para o crescimento da marca da Lusa: fortalecer as próprias raízes no bairro do Canindé enquanto amplia sua conexão com públicos que vão além da tradicional comunidade luso-brasileira.

Esse movimento revela uma estratégia que vai além do futebol. Trata-se de posicionar a Portuguesa como uma instituição cultural, social e histórica da cidade de São Paulo.

Na última semana, a SAF publicou, em suas redes sociais, uma homenagem à escritora Carolina Maria de Jesus, que faria aniversário no dia 14 de março. Mais do que um gesto simbólico, esta lembrança teve outro objetivo importante: Frisar a importância do bairro do Canindé e o papel que a escritora, que morou anos na região, também possui na história do clube.

Sua principal obra, “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada”, publicada em 1961, vendeu mais de um milhão de exemplares e foi traduzida para 14 idiomas. O livro transformou em literatura o cotidiano de uma mulher negra e pobre que registrava, em diários, as dificuldades e a dignidade de quem vivia à margem da sociedade. O que poucos sabem é que a publicação conta com registros que falam do antigo estádio Ilha da Madeira, o que viria a se tornar, anos depois, o estádio Dr Oswaldo Teixeira Duarte, marcando também a casa lusitana na história da literatura brasileira.

Ao resgatar essa memória, a Portuguesa reforça uma mensagem importante: o Canindé não é apenas um estádio ou um bairro ligado ao futebol, mas também um espaço de cultura, história e identidade urbana.

Associação busca retomar conexões institucionais históricas

Se de um lado a SAF olha para a cultura e para a história local, a Associação também vem buscando fortalecer conexões institucionais importantes. Na última semana, o presidente Leandro Teixeira Duarte e sua diretoria receberam representantes da Universidade Presbiteriana Mackenzie para discutir possibilidades de parceria e estreitar relações históricas.

O encontro não foi apenas protocolar. O Mackenzie faz parte da própria história da Portuguesa, já que houve uma parceria entre as instituições que permitiu ao clube disputar seu primeiro Campeonato Paulista após a fundação.

Resgatar esse tipo de relação é mais do que revisitar o passado. É criar pontes para o futuro, seja em projetos acadêmicos, iniciativas culturais, programas sociais ou ações de inovação. A Lusa já havia realizado parcerias semelhantes nas últimas décadas, como com a Universidade Nove de Julho (UNINOVE), que permitiu que os alunos realizassem atividades esportivas nas instalações do clube, o que devolveu a vida para a parte social.

Outro gesto simbólico foi a visita institucional à Casa de Portugal de São Paulo, com a presença dos presidentes da Associação, da SAF, Alex Bourgeois, além do ex-presidente Antonio Carlos Castanheira, o que reforçou o vínculo histórico da Portuguesa com a comunidade luso-brasileira.

Durante décadas, a Portuguesa foi naturalmente identificada como o clube da colônia rubro-verde em São Paulo. Essa origem faz parte de sua identidade e deve ser valorizada, embora haja alguns torcedores que defendam um rompimento disso e até a mudança de nome, algo que em minha opinião pessoal discordo totalmente. O cenário atual, inclusive, aponta para algo ainda maior e que todos concordam: transformar a Lusa em um clube que dialogue com toda a cidade.

Para o marketing esportivo, esse movimento é estratégico. Quanto mais a Portuguesa se conecta com o bairro, instituições culturais, universidades, artistas e a população local, maior é sua capacidade de atrair novos torcedores, parceiros, patrocinadores e até sócios para quando o projeto de revitalização da casa lusitana for concluído.

O futebol continua sendo o principal elo emocional, mas o clube também pode se posicionar como um centro de convivência, cultura e memória urbana.

O estádio do Canindé sempre foi um símbolo dessa conexão entre futebol e cidade. Ao valorizar histórias como a de Carolina Maria de Jesus e ao retomar relações institucionais com entidades históricas, a Portuguesa mostra que entende o potencial que possui. A equipe verde encarnada pode fortalecer seu papel como agente social e cultural da região.

Para quem trabalha com marketing esportivo, a lógica é clara: clubes que se conectam com sua comunidade ampliam seu alcance, geram identificação e constroem valor de marca. Alguns exemplos que podemos nos inspirar são o Paysandu, Tuna Luso e o Remo com os uniformes inspirados no Círio de Nazaré, em 2025, que tiveram destaque até internacional, por relacionar o esporte com um dos eventos da religião católica mais conhecidos no mundo.

E nesse aspecto, os movimentos recentes indicam um caminho promissor. Um caminho em que tradição, cultura, história e futebol caminham juntos para aproximar ainda mais a Portuguesa de novos públicos — sem nunca perder de vista as raízes que nasceram no Canindé.

*Formado em jornalismo pela Universidade Guarulhos (UNG), Chrystian Gedra tem 33 anos e passagens pelo extinto Lusa News, portal Terceiro Tempo, jornal Guarulhos Hoje, Farol Autos e Jornal do Farol, além de ter sido assessor de imprensa da Portuguesa em 2016. Atualmente conta com mais de seis anos de experiência em marketing e faz parte do time da agência Mind4.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do NETLUSA

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