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Tiago Cabral: As saudades que eu tinha de uma grandiosa festa na nossa alegre casinha

Torcida rubro-verde fez uma festa do nível que o Canindé merece

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Foto: Divulgação/Portuguesa

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A grandiosidade que o futebol possui nas nossas vidas é, em grande parte, construída pelas memórias que guardamos de um estádio. Acompanhar nosso time por 90 minutos é uma verdadeira lição de vida. Aprendemos sobre amor, coletividade, alegria, tristezas e, quase sempre, injustiças.

A decisão de torcer para um time muitas vezes tem influência do pai, de um tio, de um avô ou de alguém bem próximo. Por vezes, nem sequer escolhemos o time — é ele quem nos escolhe. Mas é inegável que, a partir do momento em que esse sentimento nasce, floresce também um senso de orgulho e pertencimento àquela comunidade.

O amor das nossas vidas é muito mais que apenas um clube. São nossas cores, nossos símbolos, nossas raízes e nossas histórias. São cicatrizes, feridas, sorrisos e ufania. Carregamos o peso de mantê-lo vivo como se fosse a herança mais valiosa da nossa família.

Por certo tempo, esse nosso amor trouxe uma enorme cruz, que carregamos arduamente sem tirar o orgulho do rosto. Tivemos que lidar com o peso de cada rodada significar a nossa vida, a nossa sobrevivência. Era sempre vida ou morte.

Essa incansável luta nos apequenou. Nos fez esquecer quem somos e o que representamos. Nada do que vivemos nos últimos 25 anos representa de fato quem somos. Esse capítulo triste está escrito e faz parte da nossa história — mas não a define.

O que nos define é o que fazemos efetivamente na nossa arquibancada. Pela primeira vez, em quase 37 anos de vida, presenciei um Canindé quase de igual para igual contra um grande paulista. Aliás, poucas foram as vezes que vi a nossa casinha tão bela; poucas vezes vi nossa gente tão orgulhosa de ser quem é.

A atmosfera do Canindé me transportou para os áureos anos 90. Fez-me recordar do estádio abarrotado em 98 contra o Cruzeiro. Fez-me lembrar de tanta coisa boa que vivemos. Aquele singelo estádio — o maior símbolo do que é torcer pela Portuguesa — teve a noite que merecia há tempos.

Viu uma torcida alegre, uma torcida que chegou sonhando com semifinal, sonhando com final. Uma torcida que, até os 48 do segundo tempo, tinha certeza de que iria exorcizar seus traumas. Uma torcida que pôde viver o calor de um mata-mata em casa, depois do rigoroso inverno que os abutres nos impuseram.

Ontem não cantávamos pela nossa sobrevivência. Ontem cantávamos para que todos soubessem que nunca morremos. Que continuaremos cantando, e cantando, pelo nosso amor e pela nossa reconstrução — que passa por nós, torcedores.

Esqueça, por um instante, as lamentações do que poderia ter sido o resultado dentro de campo. Esqueça a dor e o choro. Pênalti perdido, chances desperdiçadas, falha da defesa… tudo isso pertence ao imponderável. Àquilo que é intangível, que foge do nosso controle, que quase sempre é injusto conosco.

Torcedor, sinta orgulho da festa que você fez! Sinta orgulho desse sentimento. Sinta orgulho do pai, do tio, do avô ou de alguém que lhe mostrou esse amor. Não peça desculpas ao seu filho por apresentar a ele o que é a Lusa! Sinta orgulho de ser quem somos e da nossa singela casinha. Sinta orgulho da festa que fizemos. Sinta orgulho de existir e de ter sobrevivido a tudo que passamos.

Por mais triste e dolorosa que seja essa eliminação, ela nos mostra que o nosso pote de ouro talvez não seja estar na semifinal ou em uma final. Nosso pote de ouro é enxergar a nossa reconstrução no horizonte. É ver que precisamos de mais jogos como esse. Que precisamos de mais festas como essa.

O Canindé que construímos com nosso suor — o Canindé que sempre foi alicerce da nossa sobrevivência — merece todo o nosso amor, toda a nossa alegria. A festa que fizemos ontem, capitaneada pela Leões da Fabulosa, já está na nossa história. Matei as saudades que eu tinha de uma grandiosa festa na nossa alegre casinha.

Tenho fé de que, no futuro, esse dia será lembrado como o dia em que cantamos e mostramos a nossa reconstrução. 

* Tiago Cabral, 33 anos, privilegiado por ter visto a última era de ouro da Portuguesa. Súdito de Capitão, cover fracassado de Clemer e o maior anticandinho do Pari. Corneteiro profissional com análises totalmente ácidas quando se trata da Lusa.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do NETLUSA

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