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André Carlos Zorzi: E se a Portuguesa disputasse o Mundial de Clubes?

Quando a imaginação nos permite convocar quaisquer atletas da história da Lusa

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Foto: Divulgação/FIFA

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Na coluna de hoje, a ideia é esquecer um pouco a derrota para o Pouso Alegre, o gol bizarro que levamos e o nosso primeiro jogo sem marcar gols no Brasileiro. Por isso a pergunta do título: E se a Portuguesa disputasse o novo Mundial de Clubes?

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A possibilidade parece absurda à primeira vista – e à segunda, à terceira… Porque é um absurdo mesmo. Por isso, quem quiser continuar lendo tem que se permitir a entrar no mundo da imaginação por alguns instantes, já que nessa realidade paralela, a Lusa não entra em campo com o time de hoje, mas sim com a possibilidade de escalar quaisquer jogadores de sua história.

Coloquemos então a Portuguesa no lugar do Los Angeles FC, que ‘entrou por último’ na competição. De cara, o jogo de estreia contra o Chelsea no Grupo D. Nena e Edmur destacavam à imprensa que sabiam a melhor forma de passar pelos ingleses, afinal, na Fita Azul de 54, Watford, Luton, e Sheffield Wednesday ficaram pelo caminho. “E o 7 a 1 para o Arsenal”, perguntou um repórter britânico na coletiva. “Próxima pergunta”, riu a dupla.

O técnico Oto Glória apostou numa escalação com Félix, Djalma Santos, César, Calegari, Zé Roberto, Brandãozinho, Capitão, Enéas, Dener, Ivair e Pinga. Desentrosado, o time, por incrível que pareça, não rendeu tanto ofensivamente, mas soube se defender. 0 x 0.

O jogo seguinte era a ‘obrigação’: Espérance da Tunísia. Glória não deixava os atletas entrarem em clima de salto alto, já que havia treinado a seleção da Nigéria e tinha em mente que os times africanos não são fáceis – o Flamengo tinha acabado de sentir isso na estreia, difícil.

O primeiro tempo mais uma vez acabou sem gols, mas faltando meia hora para o fim do jogo, o placar indicava 2 x 0 para o Espérance. Brandãozinho sentiu alguma dor e fez sinal de substituição. Oto Glória atendeu ao pedido de saída, e, ouvindo o barulho da torcida pequena, mas barulhenta dos tunisianos, disse no ouvido de quem estava entrando: “Vai lá e pensa que você está no Maracanã em 59. Imagina que esses caras cantando são os mesmos que te vaiaram”. Dito e feito. Um, dois, três. Antes do cronômetro bater os 45′, Julinho Botelho já tinha virado o placar. Nos acréscimos, mais um, igualzinho ao 4.º que ele também fez contra o Corinthians, naquele 7 x 3 de 51.

A Lusa chegou ao último jogo da 1.ª fase em situação confortável, mas ainda sem estar garantida. Na coletiva pré-jogo, o Leandro Amaral estava tão otimista que propôs tirar do próprio bolso para fazer o mesmo que o Flamengo fez em 1998: se a Lusa perder, a torcida recebe o dinheiro do ingresso de volta. Não foi preciso: 1 x 0 e a passagem garantida para a fase seguinte.

Para euforia de alguns, e desespero de outros, o adversário das oitavas era o mesmo que o da inauguração do Canindé, lá em 1972. Quando o Benfica entrou em campo, alguns torcedores da Lusa tinham a sensação de que o jogo era um clássico, e outros sentiam o coração dividido – Mas ninguém teve coragem de torcer contra a Rubro-Verde.

Servílio abriu o placar aos 3′ e ampliou aos 6′. Muita gente até imaginou que ele fosse fazer mais três, chegando a cinco, como naqueles jogos de 59, mas parou por aí. Achávamos que seria fácil, mas os portugueses diminuíram aos 10′, e martelaram a nossa zaga o restante da partida. O jogo permaneceu em 2 a 1 até os minutos finais, quando… O juiz apitou o fim e respiramos aliviados!

Nas quartas, vinha o poderoso PSG, o time mais temido do mundo no momento. “Se meteram 5 a 0 na Inter, vão fazer quantos na gente”, alguns se amedrontavam. O Capitão se envolveu até numa polêmica com a fornecedora da FIFA depois do jogo, porque foi com tanta vontade nas jogadas que furou não só uma, mas duas bolas no decorrer da partida. Vinha o segundo 0 x 0. Pênaltis!

Isidoro bateu o primeiro, e perdeu. Ufa, o rival fez o mesmo. Calegari e Wilsinho também erraram, mas os outros dois batedores dos franceses acertaram em cheio. Agora para a Lusa avançar era quase impossível: converter as duas cobranças que faltavam, e torcer contra o rival. E não é que o Dida estava inspirado e defendeu as três seguintes? “Dedico essa vitória especialmente ao sr. Armando Marques”, brincava Oto Glória a um microfone antes de ser carregado pelo elenco.

Semifinal, a penúltima etapa. Os jornais indicavam que a “final antecipada” era a do outro lado, entre Real Madrid e Manchester City. As “zebras”, diziam, vinham do confronto entre Portuguesa e Fluminense. Teve torcedor que cruzou até a fronteira do México a nado para acompanhar o reencontro entre os times que não se enfrentavam desde 2013.

E foi um jogaço. A Lusa saiu na frente, o Flu empatou e virou. A Lusa empatou e virou, também. O Flu empatou mais uma vez. A Lusa retomou a liderança, e o Flu empatou. Como seria muito improvável um jogo da Lusa contra um time em com nome findado em “ense” terminar em 5 x 5, o placar parou por ali: 4 x 4. E mais pênaltis. Sob protestos da própria torcida da Lusa, o Glória escalou o Héverton pra bater o primeiro. Não fez “igual chuchu”: foi lá e acertou no ângulo. Mas foi um último momento de alegria: perdemos.

A câmera da FIFA focava nos rostos desiludidos dos lusitanos, às lágrimas. Um torcedor tricolor, aos risos, fazia gesto de choro. A transmissão volta a campo e mostra os jogadores do Fluminense dando a volta olímpica, enquanto a Lusa já tinha ido embora faz tempo. O 4.º árbitro entregava um papel ao técnico do Fluminense, cujo sorriso sumia do rosto. Ele levava as mãos à cabeça, mas ninguém entendia o porquê. As imagens, então, recuperavam o momento em que Oto Glória entregava aquilo aos oficiais da partida, mas ninguém sabia do que se tratava.

O caso seria esclarecido somente no dia seguinte, e envolvia o camisa 21 do Fluminense. Ele foi expulso nas oitavas de final, cumpriu a suspensão e voltou no jogo seguinte, como era de se esperar. O problema é que o juiz do Catar tinha dado o cartão vermelho anotou o número “12” na súmula, em vez do “21”. Como o número 12, o goleiro reserva, havia sido relacionado para os dois jogos seguintes, o jeito foi anular a classificação dos cariocas. Todo mundo cancelou as passagens de volta para o Brasil e refez as reservas de hotel: Lusa na final!

Na semana da decisão, a diretoria tentou convencer a FIFA a liberar uma edição especial do uniforme quadricolor ao estilo ‘Windows’, como aquele de 1997, para este novo duelo contra o Real Madrid, mas não deu certo. Fomos com o tradicional verde e vermelho, diante de um time inteiro jogando de branco.

O jogo foi pegado, disputado, corrido. Aos 34′ do segundo tempo, vendo a persistência do 0 x 0, Oto Glória sente que precisa fazer uma mudança no ataque. Parte do time ofensivo está esgotada, e outra parte está suspensa por conta dos amarelos da semifinal. Ele olha para o banco hesitante, mas decide fazer uma mudança. Não surte tanto efeito e vamos à prorrogação. E lá se vai o primeiro tempo extra. A essa altura, a Lusa joga mais na raça e no coração do que na habilidade. O Real domina o jogo, mas também não consegue marcar.

Eis que, aos 4′ do último tempo da prorrogação, um jogador alto e desengonçado recebe a bola vinda da lateral-esquerda. Ele está alguns metros à frente da meia-lua da grande área. Domina a bola como pode e dá dois passos enquanto tenta se desvencilhar da marcação do adversário. Não parece um bom ângulo, e ele não bate tão bem na bola, mas ela vai rasteira e entra no canto esquerdo do gol. No Brasil e nos Estados Unidos, a torcida explode. Depois do “Tum, tum, tum, tum, tum: Portuguesa!”, a Leões grita o nome da fera: Diego Viana!

Fim de jogo. A manteiga caiu virada pra cima! Agora podemos dizer que já vencemos os dois grandes de Madrid em torneios internacionais. As manchetes destacam: “Tem coisas que só acontecem com a Portuguesa!”. Neste caso, só em sonho, mesmo. Mas quem sabe daqui a alguns anos? Rumo à Série C!

* André Carlos Zorzi é jornalista, autor de “Para Nós És Sempre O Time Campeão – A Portuguesa de 1996” e coautor de “Lusa: 100 Anos de Amor e Luta”.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do NETLUSA

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